
Luís Vicente - Biólogo
Por todos os motivos, brilhantemente apresentados pelo Biólogo Luís Vicente, num texto publicado no Facebook, sempre abominei a caça e os caçadores que matam por puro prazer de matar. 😡
De quem será a culpa? Obviamente de governantes que não têm capacidade intelectual para trazer Portugal para o século XXI d. C..
Isabel A. Ferreira
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[imagem tirada da net, em https://www.bookyourhunt.com/en/tour/17724]
«CINEGETICAMENTE…»
Texto do Biólogo Luís Vicente
«Devo confessar que sou um indivíduo limitado.
Dou-me bastante mal com a IMBECILIDADE ORGANIZADA. Em particular com aquela que, desconhecendo em absoluto os factos e a dinâmica da Natureza, se apresenta de peito feito, com ares eruditos e pretensões de grande sapiência.
É a sapiência balofa dos que nada sabem, mas sabem muito bem aquilo que querem.
Uma espécie de IMBECILIDADE MAFIOSA.
Devo começar por dizer que sou biólogo. Biólogo de campo. Conheço a Península Ibérica, a França e a Itália de lés a lés, bem como inúmeras ilhas dos oceanos que nos rodeiam.
Portanto, poupem-me ao argumento do «urbano-depressivo», porque não sou urbano nem, que eu saiba, particularmente depressivo.
Vivo no campo. E passo provavelmente muito mais tempo no campo do que a generalidade dos caçadores.
Com uma pequena diferença: não vou ao campo apenas nos dias de caça.
ESTOU LÁ SETE DIAS POR SEMANA.
A estudar. A observar. A tentar compreender.
E depois vem a frase bombástica:
«DESCENDEMOS DE CAÇADORES-RECOLECTORES!»
Pois descendemos.
E daí?
Isso não legitima rigorosamente nada.
Há muito que deixámos de ser caçadores-recolectores. No final do Pleniglaciar e ao longo da transição para o Holocénico, algumas populações humanas foram-se sedentarizando e, se quisermos convocar a bela provocação de Yuval Noah Harari, talvez possamos dizer que não domesticámos o trigo: FOMOS DOMESTICADOS POR ELE.
Primeiro no Sudoeste Asiático, depois pelo Crescente Fértil e, progressivamente, por grande parte do planeta.
Portanto, o facto de os nossos antepassados terem sido caçadores não legitima coisa nenhuma.
Também devo ter tido antepassados que violaram mulheres cativas. Também devo ter tido antepassados esclavagistas.
Isso legitimaria que eu fosse hoje violador ou mercador de escravos?
Obviamente que não.
Nós, Homo sapiens, somos responsáveis ou co-responsáveis por extinções monumentais ao longo da nossa expansão pelo planeta. Poderia ficar aqui a discutir a extinção da megafauna à medida que sucessivas populações humanas foram ocupando novos continentes e ilhas.
Mas não.
Não vou por aí.
Hoje estou apenas particularmente sensível à IMBECILIDADE ORGANIZADA.
Por isso, deixo uma pequenina nota de Biologia.
Qualquer animal obtém energia do ambiente, fundamentalmente através da alimentação. E essa energia não é infinita.
Existe um ORÇAMENTO ENERGÉTICO.
Uma fracção é gasta na procura, captura e ingestão de alimento. Outra na manutenção do organismo. Outra na defesa do território, quando a espécie é territorial. Outra na procura e escolha de parceiros sexuais, nas paradas nupciais, na cópula e na reprodução. Outra nos cuidados parentais. Outra na construção e manutenção de abrigos. Outra na termorregulação. Outra ainda na vigilância e fuga perante potenciais predadores.
E poderíamos acrescentar X, Y e Z.
O princípio é simples:
A ENERGIA GASTA NUMA ACTIVIDADE DEIXA DE ESTAR DISPONÍVEL PARA AS RESTANTES.
É da gestão desse orçamento que depende, em grande medida, a sobrevivência e o sucesso reprodutor de um animal.
E chegamos finalmente à caça.
Porque aquilo que muita gente parece não compreender é que AS VÍTIMAS DA CAÇA NÃO SÃO APENAS OS ANIMAIS ATINGIDOS PELOS CHUMBOS.
Aliás, no caso das próprias espécies cinegéticas, uma gestão verdadeiramente competente, cientificamente fundamentada e rigorosamente fiscalizada poderia, em determinadas circunstâncias, limitar bastante o impacto populacional da actividade.
O problema enorme são OS OUTROS.
Todos os outros.
Os milhares de animais que vivem numa área de caça e que não constam de lista alguma de espécies cinegéticas.
Quando um grupo de caçadores entra num território — em trupe ou isoladamente, com cães ou sem eles — não interage apenas com a perdiz, o coelho, o javali ou qualquer outra espécie que pretende matar.
PERTURBA UMA COMUNIDADE INTEIRA.
Há homens. Há cães. Há vozes. Há movimentos. Há tiros.
E há medo.
O animal assustado entra em resposta de emergência: activa-se o sistema nervoso simpático e o eixo hipotálamo-hipófise-supra-renal; libertam-se catecolaminas, entre elas a adrenalina, e glucocorticóides; aumenta a frequência cardíaca, altera-se a ventilação, mobilizam-se reservas energéticas e intensifica-se a actividade muscular.
É necessário fugir.
E fugir custa energia.
Muita energia.
Ao nível celular, essa energia traduz-se no consumo acelerado de ATP — TRIFOSFATO DE ADENOSINA, A MOEDA ENERGÉTICA DA VIDA — e na mobilização das vias metabólicas capazes de o disponibilizar: sistema ATP-fosfocreatina, glicólise e metabolismo oxidativo.
Sim, eu sei.
Dito assim parece hermético.
Então digo de outra maneira.
UM ANIMAL CHEIO DE MEDO GASTA NUMA FUGA AQUILO QUE PRECISAVA DE GASTAR PARA VIVER.
E o orçamento é limitado.
Se gastou mais a fugir, sobra menos para procurar alimento.
Menos para defender o território.
Menos para encontrar parceiro.
Menos para reproduzir-se.
Menos para incubar ovos.
Menos para alimentar crias.
Menos para sobreviver ao frio, à fome, à doença ou ao predador seguinte.
E há mais.
Uma ave pode abandonar temporariamente o ninho. Uma cria pode ficar sem cuidados parentais. Um animal pode ser afastado de uma zona de alimentação. Outro pode perder o abrigo. Outro ainda pode, em situações extremas, morrer por traumatismo, colisão ou exaustão durante uma fuga precipitada.
Nenhum deles levou um tiro.
Nenhum aparece na fotografia do caçador.
Nenhum entra na contabilidade das peças abatidas.
MAS TODOS PAGARAM A CAÇA.
É esta parte da equação que sistematicamente desaparece quando se pretende reduzir o impacto cinegético ao número de animais mortos.
Ecologicamente, não funciona assim.
Uma espingarda não dispara apenas sobre o animal para o qual está apontada.
O TIRO ATRAVESSA, SOB A FORMA DE PERTURBAÇÃO, TODA A COMUNIDADE BIOLÓGICA.
É por isso que discutir seriamente o impacto da caça sobre a biodiversidade exige falar não apenas de mortalidade directa, mas também de perturbação, stress, deslocação, alteração do comportamento, perda de oportunidades de alimentação e reprodução e abandono de áreas de refúgio.
E é por isso que a caça pode ter efeitos sobre a biodiversidade muito para além das espécies que constam do calendário venatório.
Não é ideologia.
Não é sentimentalismo.
Não é conversa de «urbano-depressivo».
É BIOLOGIA.
Simples.